Entrega

Os beijos de agradecimento imensurável, admiração profunda e ternura pura eram tão importantes como os apaixonados, a rebentar de desejo e de procura de satisfação.
Aqueles depois da vontade estar satisfeita, do corpo ter dado tudo o que a mente não podia, do desejo se ter materializado em toques, carícias, mãos que agarram e não querem largar nunca mais. Depois do rasgar apaixonado de meias e esborratar do batom, do puxar de cabelos e do mordiscar do peito. Depois das unhas que agarram as costas dele terem deixado a sua impressão temporária, das pernas voltarem a ter circulação, das mãos se tornarem meios de prazer tais que a respiração deixa de ser ofegante – pára por uns instantes. Depois do êxtase final que os leva àquele lugar estranho onde são infinitos e o mundo deixa de ter forma, depois de sensações inexplicáveis, indefiníveis. Lugares estranhos onde só há espaço para uma alma, composta por duas que se tocam e se unificam. Depois dos suores calorentos e depois do nada e do tudo, há aquele momento que nos traz de volta ao que não é real – ao mundo. Porque a verdade não é isto, isto é a sala fechada que de vez em quando nos abre uma janela para o que é real. Uma gigante sala de espera que através de sensações nos deixa entrar em várias salinhas de prazer, que são o que nos faz viver e não existir. Um raio de sol no rosto, um mergulho no mar gelado, a intimidade e cumplicidade de um olhar, antes dela inclinar a cabeça para trás, repleto de vontade. O depois de tudo isto também é importante. Não digo o abraçar, o peito que se torna almofada, o cigarro partilhado nem a ‘cortesia’ de não ir logo embora. Falo do(s) pequeno(s) gesto(s) que demonstram o cuidado e carinho que ele tem por ela. Um afagar de cabelo, uma carícia no rosto, um beijo na testa, um olhar de pura entrega e proximidade. Coisas simples. Coisas simples que dizem muito. Não precisava de mais, não sempre.
Às vezes a entrega e a energia gasta tinha sido tanta que ela precisava de poder colapsar totalmente no lençóis, sem se preocupar com ele. Às vezes estava tão esgotada que não tinha reacção. Ficava deitada, virada de lado para fora da cama, de olhos fechados ou semiabertos olhando o vazio. Não que estivesse a pensar no que aquilo significaria, muito menos nele e no futuro, mas precisava daqueles momentos. Não para pensar mas para saborear a falta de muros e de segredos que possuía naquele momento. Para se sentir a si, despida física e psicologicamente, sentir o seu cerne, quem era sem jogos nem pretensões. Para se sentir nua.
Era ali que o outro tipo de beijo era mais importante. Ou outro tipo de carícia, de palavras, gesto. Quando estava assim, tão exausta, tão vazia de sentimentos, quando tinha dado tudo e não restava nada para dar, é que ela precisava dele – mesmo que nunca lhe pedisse o que quer que seja.
Ele sabia quando ela precisava de carinho e ternura. Ele sabia quando ela lhe tinha dado absolutamente tudo, quando era inteiramente dele e só dele.
Deixou a água a correr na banheira enquanto voltava ao quarto para a ir buscar. O seu mais-que-tudo, a sua deusa, parte de si. O seu desejo e o seu eterno sonho estava ali e precisava de ser relembrado do quão especial era. Ele sabia o quanto significava para ela, queria relembrar-lhe o quanto ela significava para ele. Pegou nela ao colo, sentiu-a a enrolar os braços aos seus ombros, a pousar o corpo no dele, e olhou bem dentro dela, daqueles olhos negros de que tanto gostava. Naquele momento ela não tinha energia para lhe responder ao que quer que fosse que ele perguntasse, não mais que murmurar palavras suspiradas. Pousou-a na banheira, fechou a torneira e pegou na esponja que nunca tinha sido usada. Ela olhava para ele, dando-lhe toda a confiança do mundo como sempre tinha feito.

publicado por verbistantum às 02:25 | link do post | comentar