Quem

Sabia perfeitamente distinguir um sonhador de um humano. Bastava ver se quando olhava nos olhos de um via o seu reflexo ou não.

Gostava de homens. Sempre o tinha dito: ‘Gosto de homens, não de rapazes.’ Na verdade era tudo a mesma coisa, tinha aprendido. Na verdade ‘The difference between men and boys is the price of their toys’, tinham-lhe dito. Não se sentia bem quando lhe perguntavam ‘Então e rapazes?’; não por causa da pergunta em si, mas pela palavra que insistiam em usar - ‘rapazes’. Fazia-lhe confusão, vá se lá perceber porquê.
Não sabia bem por que raio tinha que ter gostos tão definidos. Gostos tão específicos. Podiam ser mais flexíveis, por vezes. Recusava ir a festas com amigos de amigas que já sabia ser código para arranjinho. Depois de muitos meses com a sua grande primeira conquista tinha-se perdido. Temos em nós, já dizia Darwin, a necessidade de nos adaptarmos ao ambiente em que estamos inseridos. Confirmou que o tipo estava carregadinho de razão. Por serem de mundos tão diferentes alguma coisa cedeu. Essa coisa foi ela. Jurou que nunca mais. Agora sabia o que queria e, mais importante ainda, o que não queria – estava pronta para enfrentar o mundo.
Pintava sempre os olhos antes de se mostrar a quem quer que fosse. Nem a reconheceriam se não o fizesse. Dormia nua sem a tinta preta que a acompanhava lealmente há tantos anos.
Nunca ninguém a conheceu como parte de um “nós”. Ela não era parte de nenhum “nós”. Acho que nunca ninguém a conheceu, ponto.
Os que a conhecem nunca a viram, ouviram, leram. Os que a conhecem talvez se lembrem dela de vez em quando, talvez a procurem inconscientemente nos rostos que passam na rua, talvez sorriam nostalgicamente cada vez que ouvem o nome dela. Os que a conhecem talvez dêem um mergulho por ela quando estão sozinhos com a sua paixão, o mar. Os que a conhecem sabem que ela diz coisas lindas, que encantam e deliciam, porque tem prazer em animar quem não merece estar triste. Quem a conhece sabe que que lhe tocou, e foi tocado, na alma. Pena que quem a conhece nunca tenha ouvido falar nela. Talvez em sonhos, talvez em sonhos.

Quem a conhece guarda-a só para si. Por isso é que ela se deixa conhecer. É tão bom ser um sonho que nunca foi sonhado.

publicado por verbistantum às 02:06 | link do post | comentar