Vi(ve)nil

Venha, vou contar-lhe uma história.

Partilhavam um amor incondicional por música. Cada nota, cada subtil mudança de tom despertava um movimento de algo que lhes era intrínseco. Como se tivessem um órgão especial que sempre que encontrava o silêncio começava a definhar. Era uma procura de sonoridades constante, incessante e necessária para a sua sobrevivência. Partilhavam o gosto pelas sonoridades únicas, únicas em qualquer aspecto. Porque para eles a música era vida. Sem ela, não eram “nós” nem eram “eu”.
Sinceramente não sei qual era a palavra que melhor a descrevia no momento. Talvez ainda não tivesse sido inventada. Todos os dias ia buscar o disco que estava na terceira prateleira a contar de cima, retirava-o da capa e do esquiço que o vestia, e punha-o a tocar. Sentia a agulha a pousar no vinil como sentia a ponta dos dedos dele a afagar-lhe o cabelo.
Partia os ovos e mexia-os com a habitual pitada de sal grosso. Punha duas fatias de pão na torradeira e na mesa dispunha a manteiga e o queijo milimetricamente igual ao dia anterior. Dois pratos, dois guardanapos, duas chávenas, dois garfos, duas facas. A torradeira dava sinal, o fogão também. Sumo de laranja acabado de espremer e uma chaleira ao lume à espera que ela lhes desse atenção. Ouviu o chiar do soalho de madeira e aumentou o volume da música, da música que todos os dias tocava incontornavelmente àquela hora.
Comeu as suas torradas, bebeu o seu chá e depenicou os ovos mexidos ainda a fumegar. Levantou a mesa, lavou a louça, voltou-se a sentar e esperou que o disco acabasse. Levantou a agulha, colocou o vinil na capa e guardou-o na terceira prateleira a contar de cima.
Voltou para a cama, beijou a fotografia do homem que pertencia agora ao mar e sonhou com o próximo pequeno-almoço que partilhariam.

publicado por verbistantum às 21:43 | link do post | comentar