Cicatrizes Douradas

Adorava sentir os grãos de areia, que se recusavam a sair da sua toalha, contra o seu rosto. Relembravam-na de onde estava.
Bem esticada e com o rosto virado para a direita, olhava para a imensa falésia, lá ao longe, que marcava o fim do areal. Tinha agarrado no cabelo, torcendo-o e pondo-o todo à sua esquerda, ficando deitado sobre a toalha de modo a não impedir o sol de se deitar sobre ela. Sentiu duas mãos grandes, as mesmas que momentos antes tinha visto enquanto dormia, a pousarem nas suas costas como que a medir a sua temperatura corporal. ‘Está quente, perigosamente quente’, pensou ele. Sabia o que fazer. Na mala dela, que estava debaixo de uma espécie de lençol branco que usava para se proteger do vento de fim de tarde, encontrou o protector solar e o óleo bronzeador. Sabia que não lhe tinha que perguntar nada. Aliás, sabia que ela gostava quando ele não perguntava. Pegou nas embalagens e encheu as mãos com uma mistura dos dois produtos. Pousou o excesso no fundo das costas dela e começou por massajar-lhe os ombros. Espalhou a loção tão exaustivamente que a pele teve tempo de absorver tudo. Com as palmas das mãos apoiadas nas costas dela desenhava círculos com os polegares, diversificando cuidadosamente a força, ritmo e intensidade de cada movimento.
Ela não se mexia. Fechara os olhos apenas.
Continuou a descer pelas costas de quem admirava, aproveitando agora o excesso de creme e óleo que tinha pousado nela. Adorava o fundo das costas dela. Como se atrevia a fazer aquela curva, naquele ângulo que se ajustava tão bem às suas mãos. Aqui já não insistiu na massagem, espalhou o creme e óleo bronzeador apenas. Desapertou-lhe os laços da pequena peça de tecido que envergava, devagar, muito devagarinho. Gostava de fazer as coisas ao seu ritmo, de as saborear, de a saborear e adorava como ela o deixava demorar o tempo que quisesse. Puxara com muito cuidado o atilho, até o nó se soltar. Fez o mesmo do outro lado. Não precisava de levantar o tecido que agora pousava nela, não que não tivesse vontade, mas agora não era o momento. Tinha descido para as coxas dela, estava sentado a admirar como o sol lhe beijava o rosto, os lábios, a admirá-la. Massajou tudo até que os vestígios de qualquer tipo de substância estar sobre ela serem nulos, espalhando o que restava docemente pela barriga das pernas dela. Refez os laços que tinha amorosamente desfeito, deu-lhe um beijo na maçã do rosto agora cheia de cor e retirou-lhe do rosto a mecha de cabelo que o vento se tinha esquecido de levar consigo.
Caminhou até ao mar, calmamente e a olhar para o horizonte, de ombros para trás e coração inundado dela. Deixou as ondas vir ter consigo, tocou na areia, lavou as mãos e levou a água ao rosto formando uma concha com as mãos; deixou a água escorrer pelo peito. Viu-a entrar na água. Um passo, outro, outro e um mergulho. Conseguia ver a silhueta dela a afastar-se, através da água cristalina.
Veio à superfície, respirar. Já não conseguia pousar os pés na areia, estava à deriva, movendo as pernas e braços para se manter à tona. Olhava para a imensidão de água que tinha à sua frente, como que de um lugar à espera de ser conquistado se tratasse. A corrente de fria que passava pelos seus pés fazia com que os aproximasse da barriga. Sentiu as mãos dele a abraçarem-lhe a barriga e fechou os olhos. Estava tão feliz por o ter ali, com ela.
Ele tinha uma maneira de a abraçar que era muito sua, muito característica, única, indiscritível. Sentiu-o encostado a ela. Trocaram beijos molhados, daqueles que escorregam e que pedem para voltar à zona em que ambos teriam pé. Nadaram até sentirem a areia a aconchegar os pés. Ele estava quase em pé, apenas com os ombros e rosto de fora, com os joelhos dobrados a formar um espaço onde ela poderia flutuar sem ser levada para longe pela maré. Estavam ali, os três: Ela, ele e o mar.
Sempre que dizia que gostava de cicatrizes recebia reacções negativas, não compreendiam o que queria dizer nem lhe davam oportunidade de se explicar. Gostava muito. Cada cicatriz contava uma história e histórias fascinavam-na. Passou os dedos pelo volume de pele regenerada que ele tinha na curva que separa o ombro das costas. Gostava de sentir a depressão que a cicatriz provocava na pele de quem a olhava com olhos de fome. Passou as duas mãos por baixo dos braços dele e chegou às duas cicatrizes que tinha naquelas costas largas que eram suas, só suas, por hoje. A cada toque sentia-o a aproximar-se, a respirá-la, a encostar os lábios molhados as seu rosto.
Inclinou a cabeça para trás, deu-lhe as mãos e enrolou as pernas à volta dele. Estava a flutuar, com o cabelo a enquadrá-la e os seios e rosto a não querer imergir no mar que a recebia com tanta ternura. Com o sol a iluminá-la, não conseguia aguentar mais. Ela, percebendo o desejo acumulado que o consumia por dentro, aproximou-se do ouvido dele e disse a primeira palavra do dia: ‘Agora.’

publicado por verbistantum às 20:55 | link do post | comentar