Lareira

Estava na hora. Mas nada aconteceu. As palavras que não foram ditas, os beijos que não foram dados, as despedidas que não foram demoradas. Só queria dormir, sabia que nada mais iria acontecer hoje, que mais nenhumas palavras iriam ser trocadas. O mundo dorme, os que não dormem escrevem para si mesmos. Como ela gostava de escrever para ele ... Enfim, outros tempos. Agora não se dava a ninguém, não guardava ninguém na gaveta mais imediata do seu extenso armário de memórias e vivências. Acabava o dia despedindo-se de si mesma, mas nunca obtinha resposta. Não ouviu mais música, não conseguia. Pensava num escritório, forrado a madeira, com sofás e mantas e talvez uma televisão. Pensava em si deitada ao lado dele, o homem que tinha deixado o mundo dela na sua forma corpórea, só e apenas assim. A dormitar ao som da respiração que a confortava. Calma, quente, aconchegada a ouvir a lareira crepitar. Com uma perna a abraçar as pernas dele e com o corpo ajustado a ele e ao sofá. Encaixada como um lego, sentiu um beijo na testa e ouviu \'Boa noite meu desejo\'. Enroscou a cabeça e prendeu por uns segundos o seu corpo ao dele com mais intensidade, como que a desejar bons sonhos, como que de um abraço já meio adormecido se tratasse. E deixou-se adormecer, ao ritmo dele. Dançaram os dois até amanhecer.
O raio de sol que entrou pela frecha das portadas do quarto acordou-a. Bocejou, suspirou, e levantou-se. Sozinha, em casa, contou quantas horas faltavam para voltar a ver o seu desejo.

publicado por verbistantum às 01:40 | link do post | comentar