Cogitationis Poenam Nemo Patitur

Saber escolher o momento. O memento. É crucial. É imperativo saber escolher o quando. Mais do que o como, o quando é o que faz do momento aquele momento.
Por momento não quero que se entenda o ano, dia, nem muito menos a hora. Por momento quero que se entenda o culminar de diversos factores que nos levaram àquele lugar, àquela situação, àquela pessoa. Porque, não acreditando na existência de um cosmos no qual as nossas vidas estão pré destinadas, acho extraordinários os momentos que presenciamos que são unicamente singulares. Aqueles em que temos a certeza de que não se irão voltar a repetir, que por isso são ainda mais extraordinários, que representam no fundo a fugacidade da vida. Nesses momentos sentimos que somos almas, somos espíritos que habitam uma forma física (que nos atrai) e que se interconectam através de sensações que escapam ao olho nu.
O toque, o sabor, o cheiro e os olhares fugazes que ficarão sempre associados àquele momento serão algo inexplicável, algo que se integrará na nossa pessoa e só em nós. E quando esses momentos são partilhados, as sensações são partilhadas, podemos entrar numa espécie de limbo. Um limbo que nos engole, que nos consome. Mergulhados num pensamento, perdemos forma, perdemos noção do espaço, tempo e de quem somos. Tornamo-nos quem eramos naquele momento tão querido. Ou quem gostaríamos de ter sido. E começamos a pensar … em como foi, ou como agora idealizamos que foi. Sentimos o passar dos dedos vagabundos da outra alma que tanto nos afectou pela nossa pele. Sentimos os raios de luz que passavam pelas finas cortinas da janela a iluminar-nos o rosto, a beijar-nos o corpo. Revivemos tudo num tempo que não existe, a uma velocidade que nós controlamos, como que se assim se tivesse passado.
O controlo do pensamento permite-nos (re)saborear momentos fugazes de uma outra maneira. Causa-nos as mesmas e até outras sensações. Permite-nos criar uma atmosfera que talvez não existisse na altura. Neste limbo consigo deixar de ouvir som. Consigo deixar de ouvir a vida que se passa à minha volta. Consigo bloquear selectivamente e cuidadosamente tudo o que pertence a este presente que quero descartar por agora. Quero estar comigo e com o meu pensamento apenas. Sem nada que me distraia ou quebre a minha linha de pensamento concentro-me em encontrar o princípio deste conjunto de sensações. O que despertou em mim a noção de que este seria um momento memorável ?
Sinto o cetim frio contra a minha pele. Como escorrega pelo corpo e me abraça. Cheiro o coco e maçã no meu cabelo, ainda quente de o ter secado. Sinto o pescoço encostado à almofada, os lençóis de algodão a acompanhar a curva das minhas costas, a entrelaçarem-se nas minhas pernas e a tentar aquecer os meus pés frios. Consigo sentir o vapor que ficou no ar do duche, a sala humedecida e aquecida pelas cutículas de água que pairam no ar. Consigo delinear o contorno de uma cadeira com roupa, de um móvel com um ecrã desligado, de um corredor que irá dar à porta que me leva de volta ao mundo real. Lembro-me de encostar a face à almofada e sentir uma linha de luz a deitar-se sobre os meus olhos, a relembrar-me que era de dia. Passo os dedos pela barriga, afago o cetim frio que os faz deslizar suavemente.
Sei que estou à espera, sei que tenho de esperar. Imaginando o que virá relembro-me das dúvidas existências que me assombravam dias antes.
Das dúvidas que todos, numa altura ou noutra, temos. Serei boa o suficiente? Porquê eu? – Sorrio, porque já sei as respostas.

A espera. A ansiedade que me consome. A vontade que se manifesta fisicamente. O querer que não é meramente físico materializa-se.
O desafio que será traduzir tudo isto para o mundo real. O desafio que será demonstrar o quanto este momento é especial, o quanto o quero, quanto me liberta a realização desta fantasia. A concretização de algo que era, outrora, irrealizável, adquire um outro significado. O atingir do impossível, do impensável, torna o momento em algo que nunca pode ser partilhado. Algo que não poderá ser repetido, descrevido, materializado.

A luz mudou. A que não era natural, a que espreitava por baixo da porta.
Sinto a presença de alguém. O som continua não existente. Porque, até agora, a minha respiração mantinha-se calma e paciente. A espera nervosa, mascarada de calma e sossego, era agora substituída pela energia que se apodera de mim, pela inconsciente esperança de que seja a outra alma à porta. E era. Estou preparada, quero este momento, desejo este momento, é agora.
A ordem de como tudo aconteceu torna-se irrelevante. Este é o meu mundo, eu controlo o que quero (re)sentir. Quero sentir o desejo a materializar-se, quero sentir a partilha de emoções e sensações que juntam estas duas almas de um modo tão singular, tão único.
Uns sorrisos de satisfação, uns olhares de perdição, uns beijos de contemplação. E tão (in)esperadamente como começou, acaba. A sensação de concretização, de satisfação profunda, de ter tocado numa outra alma apodera-se de mim. E sei. Sei que vou pensar muito neste momento. E saboreá-lo até não poder retirar mais nada dele. Sugar todos os pedaços desta vivência que nunca aconteceu. Esta vivência imaginada que me parece tão real. Este modo de fugir a uma realidade que não é a minha, com a qual não me identifico e na qual não desejo viver.
Neste momento em que me reconheço, eu sinto. E sinto algo que não posso, nem desejo descrever. Porque quero guardar essa sensação nos cantos recônditos da minha alma, para a poder ir buscar, quando precisar.

A realização impossível de fantasias está mais perto do que pensamos. Seja esta qual for. Basta permitirmo-nos entrar neste transe, cair neste limbo, e imaginar. Entrar neste mundo que é meu, só meu, e que vive dentro de mim.

publicado por verbistantum às 01:19 | link do post | comentar