Percepção

Nuvem, sol, sol, nuvem. Aquela luz que ora ameaçava calor ora ameaçava ser hora de vestir o casaco. Estava sentada, a escrever, lá fora numa mesa de esplanada cheia rodeada de espanhóis. Era compreensível, pensou. Estava no coração da cidade, num dos cafés mais emblemáticos da sua cidade. De onde se sentou conseguia ver a rua até ao fim, as formiguinhas muito ocupadas que a subiam e desciam e os empregados dos cafés a esforçarem-se por atender toda a gente. Viu uma, duas, três pessoas que conhecia; uma, duas, três que a reconheceram a ela. Cumprimentou um ex-deputado que a conhecia desde antes de ter nascido e que nitidamente não a reconheceu imediatamente. As pessoas crescem, evoluem, transformam-se em alguém diferente. A maneira como se sentiu despida perante os olhos daquele homem fê-la abrir o jornal à sua frente ao sentar-se, como que de um escudo se tratasse. Não que tenha feito qualquer tipo de comentário brejeiro nem nada que se pareça, mas porque ela ainda o via como se tivesse cinco anos e estivesse a olhar para cima, para alguém importante. A percepção que ele tinha dela tinha mudado, mas a que ela tinha dele não. Sentaram-se então, melhor, ele sentou-se na mesma mesa onde ela estava, quebrando agora totalmente a sua linha de pensamento. Falaram sobre tudo e sobre nada, até porque ela sabia bem como não responder ao que não queria que os outros soubessem. Tinha aprendido isso à algum tempo, que o que fica por dizer é muitas vezes mais importante do que o que se diz.
Quatro horas. Estava ali à conversa há quase meia hora e só pensava na vontade que tinha de se descalçar, de ir para casa ouvir os discos que tinha acabado de comprar. Essa era uma das suas características: Estava demasiado tempo sozinha em casa mas sempre que saia só queria era voltar.
Pequenas discussões sobre ideologias políticas divergentes em alguns aspectos e sobre os fundamentos da economia que não estavam a ser bem empregues. O telefone tocou. O dele, o dela nunca tocava, não àquela hora. Deu-lhe tempo para olhar em volta, para as pessoas, para os rostos cansados e cabelos rebeldes que passavam por si. Gostava de inventar histórias para as pessoas que passavam. Pequenos apontamentos de uma história de vida, baseados em expressões, roupa, sacos de compras e tons de voz que traziam consigo. Quase sempre eram trágicas, mas só por acaso.
Com o fim do telefonema o homem despediu-se, enviando cumprimentos para a família e convidando-a para vir tomar outro café um dia destes. Disse que sim, claro, mas sabia que nunca o iria fazer. Vidas diferentes, pensou.
Respirou fundo, estava, de novo, sozinha. Rodeada de barulho, de cantorias de rua e de vozes cheias de sons indefinidos e incompreensíveis. Estranhamente, não a incomodou. Era agora o momento certo para começar a escrever a sua história.
‘Menina ?’ – Ouviu lá ao longe a voz que a chamava, tocando-lhe no ombro. ‘Desculpe, mas vamos fechar.’

publicado por verbistantum às 19:04 | link do post | comentar