O Que Fica

Em todos aqueles anos, não lhe enviou uma única carta.

A chuva tinha deixado no ar aquele cheiro característico a terra molhada. Com medo de escorregar decidiu abrandar o passo. \'A calçada portuguesa não era amiga das portuguesas\' - tinha lido a frase numa revista qualquer há uns anos. Estava à procura de um vestido para mais um dos jantares a que não podia faltar e ao qual não queria ir. Tanta coisa tinha por ali passado nos últimos anos que as memórias mais distantes já não era imediatamente associadas àquela rua. Depois de várias tentativas falhadas, entrou numa loja onde encontrou o que estava à procura - um vestido azul escuro, muito escuro, quase preto. Era um tom parecido com um vestido que tinha tido há muito, muito tempo. Na altura nem isso lhe passou pela cabeça. Saiu da loja, olhou para os sacos e decidiu que estava na hora de voltar para casa. Subiu a rua em direcção à praça onde tinha estacionado e, mal parou à espera de atravessar a estrada lembrou-se que tinha deixado o cartão de crédito na máquina da loja. Apressou o passo e com dois sacos numa mão e um na outra começou a descer outra vez a calçada.
Tinha olhado para outro lado da rua inconscientemente e um arrepio apoderou-se do seu corpo. Parou. Não podia acreditar, estava ali.
Do outro lado da rua um homem caminhava na direcção oposta, subia a calçada de jornal na mão. Olhou para o lado e viu-a. Estavam os dois, parados, a olhar um para o outro, sem saber o que pensar, como reagir. Tantos beijos, tantas palavras, tantas tardes e tantas noites que reapareceram na memória de cada um. Ela sorriu. Ele respirou. Com um leve inclinar de cabeça conseguiu perguntar-lhe tudo o que queria perguntar. Com o esboçar de um sorriso compreensivo respondeu-lhe a tudo o que queria saber. Estava bem, era feliz. E ainda partilhavam aquele carinho especial um pelo outro.
Enquanto ela apertava as suas mãos uma contra a outra, para parar de tremer, e olhava para baixo para ajustar a posição dos sacos, ele olhou em frente e seguiu caminho. Aliviada por ter sido ele a dar o primeiro passo, continuou a descer a rua, sabendo que ele não iria olhar para trás para a ver. Recuperou o cartão e foi para casa, incrédula. Tinha tudo sido meio surreal, como tudo a tinha levado ali, àquele momento, por aquela razão.
Afinal de contas, tinha ido comprar um vestido azul, quase preto, como os que ele gostava.
publicado por verbistantum às 01:20 | link do post | comentar