Pés Descalços

Com a relva entre os dedos e as azedas amarelas a roçar a barriga das pernas sentiu a brisa a juntar-lhe o vestido ao corpo. Sentiu o cabelo a ser massajado pelo vento que vinha na sua direcção, o sol a deitar-se na sua pele; humedeceu os lábios secos.
‘Venha cá’ – ouviu no meio da nona sinfonia de Beethoven que tocava no gira-discos. Rodou a cabeça, espreitando por cima do ombro o homem que a chamava. Lançou um sorriso convidativo que já sabia ir provocá-lo, que já sabia ir fazê-lo vir ter com ela.
O algodão branco bordado deixava o sol delinear a sua silhueta por baixo do vestido, mas só e apenas a sua silhueta.  O resto, a imaginação completava. Os braços que a envolveram estavam quentes, macios e bem agarrados a si. Mãos que encontraram repouso quase nas suas costas, descansando confortavelmente debaixo dos seus seios. Um beijo inesperado que dura tempo suficiente para ficarem os dois à mesma temperatura. Peito que aconchega demais para ela não se voltar. Aqueles olhos de desejo que a tinham despido momentos antes estão agora a pedir a sua alma, não o seu corpo. Nariz com nariz, abraçados um ao outro, sentiram o tempo parar. Eram um só, sabiam que estariam para sempre ligados. Ele abraçou-a, estava tão apertada que quase não conseguia respirar. Viu escorrer uma lágrima pelo ombro dele. Era sua. Ao sentir a tristeza dela, ao sentir as lágrimas que começavam agora a escorrer pela cara de uma alma tão bonita, tão completa, colocou as duas mãos suavemente no seu rosto, limpando as lágrimas com os polegares e olhando para o que de mais profundo havia nela. Sabia que nunca mais a iria ver, sabia que nunca mais iria poder cheirar aquela combinação de maçã, manga e outros frutos perfumados. Inspirou fundo, puxou-a para si e guardou-a.
De pé olhando o horizonte, tirou do bolso uma azeda amarela já seca. Do navio só via mar, só via mar e só a via a ela.

publicado por verbistantum às 21:34 | link do post | comentar