Polaroid

O cheiro agarrava-se a ele fazendo-o ficar paranóico. O metro estava cheio para uma segunda feira  à tarde, e os olhares rápidos que deslizavam até ele vindos dos outros passageiros faziam-no remexer desconfortavelmente no seu lugar. Tinha o corpo cheio dela, uma frase que nunca imaginou pensar.

Ele não se mexeu. Apenas sorriu. Ela deitou-se de lado olhando para ele, um leve pressionar de lábios apoderou-se dela, como que em sinal de protesto, amuo, e deixou a sua mão descansar no espaço entre as coxas. A maneira como ele estava fazia-o parecer um actor dos anos cinquenta, imponente, dominante, em pé a admirá-la. Pena que a luz estivesse errada. Era o início da tarde e os filmes dessa época parece que se esquecem que essa hora alguma vez existiu. O preto e branco gostava de meias-noites e de amanheceres.
Ele estava à espera, mas não lhe dizia do quê. No princípio ela estava frustrada, o que quer que seja que ele estava à espera seria completamente irrelevante face ao estado em que ela se encontrava. Um estado, de vontade, que tinha sido inteiramente causado por ele, pelas suas palavras e pela verbalização dos seus desejos.
O telefone tocou, barulho de fundo obstruído pelo som da dança de sedução que ela fazia com o seu olhar, com os seus cabelos, com o seu corpo, deitada à sua espera. Porque é que haveria de esperar? Não percebia, não compreendia o porquê de ficar tantos segundos, tantos minutos só a olhar para os seus olhos. Porque é que ele esperava?

Ele esperava porque sabia que a espera a enlouquecia, a fazia suplicar, gemer, posicionar-se da maneira que achava ser a mais atraente para ele, esforçar-se por não perguntar nada. Era por isso que ela estava ali deitada, com um semi-sorriso nos lábios que lentamente esmoreceu quando os segundos se transformam em minutos. Mas porque está ele com aquele sorriso ridículo quando podia estar a ter tudo o que deseja? A espera tinha um efeito nele diferente do dela. Ela estava cada vez mais consumida pela ideia do que ele lhe iria fazer quando finalmente a agarrasse, a tornasse dele. Mas ele não, ele estava a testar-se a si próprio. A contemplar o que era seu, a admirar o que queria e o que o queria a ele. Aqueles minutos em pé, sobre ela, foram a confirmação de que ele era mais do que pensava. Era alguém que era desejado por outra alma, alguém que sabia que a alma que ali estava, naquele momento, lhe pertencia. Era dele, dele e só dele. Sabia que ela não só deixava que ele lhe fizesse o que quisesse mas que tinha prazer em fazer o que ele lhe confessava querer fazer. Gostava de saber o que o fazia gemer. E estava mortinha para o ter nos braços.

A espera, para ele, era a memória que queria guardar. A imagem dela, nua para si, a olhar-lhe nos olhos e a pedir-lhe com mil silêncios que a beijasse era o que queria guardar. Uma imagem do que o desejo verdadeiramente era. Era isto. E ele sabia o quão especial ela era para si. O quanto ela o admirava, o quanto o queria por inteiro, o quanto queria ser sua. Ali ficou uns minutos. Olhou para ela, viu-a, sentiu-a e percebeu-a. Até não aguentar mais.

publicado por verbistantum às 19:36 | link do post | comentar