O ter pena de ter acabado é parvo

O ter pena de ter acabado é parvo. É parvo, é mesmo. Se há frase que me faz espécie é esta mesmo.

 
Gosto da ideia de que um dia vamos morrer. Quem nos fabricou percebe disto. Saber isso é uma vantagem enorme, viver em função de tal é ainda mais vantajoso. Se tivesse a opção de viver para sempre não assinava o quadradinho no formulário.
Isto provém tudo provavelmente de problemas que tenho com a ideia de envelhecer e definhar. Mas não é da morte nem da altura da morte que estou a falar; Estou sim a falar do conceito de nascermos todos com um prazo de validade. Saber que não vamos aqui ficar eternamente faz-nos valorizar a existência uns dos outros, e a nossa mesmo, de um modo que não aconteceria se o fim não estivesse eminente.
Como já disse, e não me canso de repetir, adoro o 'agora'. Adoro momentos que sei nunca se voltarem a repetir, não se poderem repetir. Prazeres carnais, intelectuais, sensoriais e emocionais. Momentos que nos dão um vislumbre do que poderia ser, do que nunca será, é para esses momentos que eu vivo. Vivo para as vivências que nunca partilhei, para as canções que nunca foram cantadas, para as almas que nunca foram tocadas por mim. Vivo pela adrenalina de ir para além do que achava ser possível, pelas pessoas que achava não terem interesse em mim, pelas noites sozinha e tão acompanhada.
Vivo para aprender, experimentar, dançar com outras almas, dar-lhes um pouco de mim e deixar um pedaço meu com elas. Vivo para os momentos em que as imperfeições se tornam perfeitas, para o momento em que tudo parece cuidadosamente planeado por um ser superior, para o momento em que me transcendo. Vivo e não existo. Quando começar a existir tem a minha autorização para ir buscar o frasco de arsénico que tenho na terceira prateleira do móvel atrás da porta do meu quarto e dar-mo a beber. No rótulo lê-se Liberdade.
publicado por verbistantum às 15:59 | link do post | comentar