Que venha a sangria derramada

Dias em que o ontem parece ter sido à dois anos são comuns nesta minha vida. A noção de tempo que não partilho com mais ninguém permite-me pensar nas coisas como distantes, esquecidas, adormecidas. Dói menos assim. Não dói aliás, não chega a doer. Sinto saudades de sensações, medo de as reencontrar e de já não serem as mesmas, daí nunca as poder sentir de novo. Medo de não serem iguais. Melhores não serão de certeza, o meu cepticismo não permite achar tal ser possível. Um medo que é importante e não condiciona. Que não é suficiente para me impedir de me atirar outra vez para um abismo sabendo que o cabo que me agarra ao penhasco quebrará se cair depressa demais. Sim, um abismo. Um. Há muitos.

O salto é o mais difícil. O momento que decidimos saltar tem em si uma catarse intrínseca que não é perceptível até voltarmos àquele mesmo sítio. Até estar em pé, confiante, de ombros para trás e cabeça erguida posso saltar nua para o que não existe, para o que nunca pode existir. Mas tenho que estar assim mesmo. Eu, só eu estar ali. Ninguém pode estar comigo, ninguém pode estar a ocupar o espaço que não pode estar preenchido. O oco é o que me permite voltar a subir.

A subida não pode ser gradual. Se for, já sei que a corda vai partir e que não conseguirei sair a tempo. Acção/Reacção. Instantânea.

Cá em cima, depois, tenho uns minutos para me compor. Uns minutos que não são os mesmos minutos para mim e para vocês. E mais nada. Já está. Uma outra história que não conto, porque não existe, que ficará arrumada numa gaveta só dela.

Quando precisar, vou lá buscá-la. Uma história minha, só minha. Só minha.

publicado por verbistantum às 19:35 | link do post | comentar