Quinta-feira, 21.03.13

Vi(ve)nil

Venha, vou contar-lhe uma história.

Partilhavam um amor incondicional por música. Cada nota, cada subtil mudança de tom despertava um movimento de algo que lhes era intrínseco. Como se tivessem um órgão especial que sempre que encontrava o silêncio começava a definhar. Era uma procura de sonoridades constante, incessante e necessária para a sua sobrevivência. Partilhavam o gosto pelas sonoridades únicas, únicas em qualquer aspecto. Porque para eles a música era vida. Sem ela, não eram “nós” nem eram “eu”.
Sinceramente não sei qual era a palavra que melhor a descrevia no momento. Talvez ainda não tivesse sido inventada. Todos os dias ia buscar o disco que estava na terceira prateleira a contar de cima, retirava-o da capa e do esquiço que o vestia, e punha-o a tocar. Sentia a agulha a pousar no vinil como sentia a ponta dos dedos dele a afagar-lhe o cabelo.
Partia os ovos e mexia-os com a habitual pitada de sal grosso. Punha duas fatias de pão na torradeira e na mesa dispunha a manteiga e o queijo milimetricamente igual ao dia anterior. Dois pratos, dois guardanapos, duas chávenas, dois garfos, duas facas. A torradeira dava sinal, o fogão também. Sumo de laranja acabado de espremer e uma chaleira ao lume à espera que ela lhes desse atenção. Ouviu o chiar do soalho de madeira e aumentou o volume da música, da música que todos os dias tocava incontornavelmente àquela hora.
Comeu as suas torradas, bebeu o seu chá e depenicou os ovos mexidos ainda a fumegar. Levantou a mesa, lavou a louça, voltou-se a sentar e esperou que o disco acabasse. Levantou a agulha, colocou o vinil na capa e guardou-o na terceira prateleira a contar de cima.
Voltou para a cama, beijou a fotografia do homem que pertencia agora ao mar e sonhou com o próximo pequeno-almoço que partilhariam.

publicado por verbistantum às 21:43 | link do post | comentar

Ode aos Gordos

Gosto do Imperfeito. Assim também não preciso de ser completa.
Cicatrizes, estrias, gordurinhas em excesso e barbas por fazer. Tudo coisas boas ao qual não é dado o devido valor. Essa frase d'Os gordos são sempre felizes' é a maior imbecilidade que já ouvi na vida. Bom, isso e o 'Foi violada porque andava vestida daquela maneira' mas para efeitos da história vou me concentrar na primeira frase que me dá vontade de soltar os cães da Polícia de Segurança Pública em cima da besta que a papagueou.
Vou começar por dizer que sou esquisita. Muito. Gosto do que todos dizem ser feio. Não sou, portanto, de todo imparcial neste assunto. Acho que cada um escolhe os prazeres que quer desfrutar. Alguns não têm consequências físicas, mas são os menos divertidos. Não sou do género de queimar sutiãs (aliás gosto muito de lingerie, não sei se era capaz) nem de bater com o punho fechado na mesa sempre que ouço coisas deste tipo, mas valha-me deus (sim, deus com minúscula) é estupidez pura. [Agora faço aqui um aparte: sou ateia, daquelas que gosta de se vestir de freira malandra, mas acho um mimo usar expressões religiosas para demostrar indignação. É só.]

Então não é que o gordo é uma espécie à parte ? E das priviligiadas ! Que tem direito à felicidade total independentemente do sexo, idade, vida em geral. Sortudos pá ... ter a feliz capacidade de mandar uma piada ou duas e correr sempre bem é invejável. Sendo assim vou pôr a cruzinha no quadradinho do formulário da vida que pergunta se quero ser gordo ou humano. Parece muito melhor.
A parte chata é quando há mais excepções que regra - o que dá cabo do sistema todo. No princípio as pessoas nem queriam acreditar quando viram um, pensavam que era um teatro ou algo do género, mas depois aperceberam-se (algumas aperceberam-se) que existiam gordos menos felizes. Esses foram imediatamente despromovidos e recambiados para a categoria de "Pessoas mais cheiinhas" - o que ainda dói mais.
Vou parar agora, acho melhor. Se o meu estimado leitor é dos que dizem coisas deste tipo precisamos de ter uma conversinha. Se é gordo e está bem consigo mesmo, como eu estou com as minhas pernas redondinhas que têm carne para agarrar, excelente. Agora, não me venha com tretas que ninguém gosta de gordos que não me apetece nada levantar e ir aí dar-lhe um valente carolo. Se é gordo (obeso é uma palavra feia que me faz comichão na língua) e não está bem consigo mesmo sugiro redireccionar os seus desejos para outra fonte de prazer. Mas faça-o por si e só se o quiser fazer. Nada de pressões externas que assim nunca dá em nada.
E com um texto cheio de ameaças e, no fundo, mal-dizer, o deixo a pensar nas suas escolhas de vida. Eu vou comer qualquer coisa que escrever tanto e tão rápido deu-me fome. Fome e vontade - mas isso é outra história. 

publicado por verbistantum às 17:57 | link do post | comentar

Quem

Sabia perfeitamente distinguir um sonhador de um humano. Bastava ver se quando olhava nos olhos de um via o seu reflexo ou não.

Gostava de homens. Sempre o tinha dito: ‘Gosto de homens, não de rapazes.’ Na verdade era tudo a mesma coisa, tinha aprendido. Na verdade ‘The difference between men and boys is the price of their toys’, tinham-lhe dito. Não se sentia bem quando lhe perguntavam ‘Então e rapazes?’; não por causa da pergunta em si, mas pela palavra que insistiam em usar - ‘rapazes’. Fazia-lhe confusão, vá se lá perceber porquê.
Não sabia bem por que raio tinha que ter gostos tão definidos. Gostos tão específicos. Podiam ser mais flexíveis, por vezes. Recusava ir a festas com amigos de amigas que já sabia ser código para arranjinho. Depois de muitos meses com a sua grande primeira conquista tinha-se perdido. Temos em nós, já dizia Darwin, a necessidade de nos adaptarmos ao ambiente em que estamos inseridos. Confirmou que o tipo estava carregadinho de razão. Por serem de mundos tão diferentes alguma coisa cedeu. Essa coisa foi ela. Jurou que nunca mais. Agora sabia o que queria e, mais importante ainda, o que não queria – estava pronta para enfrentar o mundo.
Pintava sempre os olhos antes de se mostrar a quem quer que fosse. Nem a reconheceriam se não o fizesse. Dormia nua sem a tinta preta que a acompanhava lealmente há tantos anos.
Nunca ninguém a conheceu como parte de um “nós”. Ela não era parte de nenhum “nós”. Acho que nunca ninguém a conheceu, ponto.
Os que a conhecem nunca a viram, ouviram, leram. Os que a conhecem talvez se lembrem dela de vez em quando, talvez a procurem inconscientemente nos rostos que passam na rua, talvez sorriam nostalgicamente cada vez que ouvem o nome dela. Os que a conhecem talvez dêem um mergulho por ela quando estão sozinhos com a sua paixão, o mar. Os que a conhecem sabem que ela diz coisas lindas, que encantam e deliciam, porque tem prazer em animar quem não merece estar triste. Quem a conhece sabe que que lhe tocou, e foi tocado, na alma. Pena que quem a conhece nunca tenha ouvido falar nela. Talvez em sonhos, talvez em sonhos.

Quem a conhece guarda-a só para si. Por isso é que ela se deixa conhecer. É tão bom ser um sonho que nunca foi sonhado.

publicado por verbistantum às 02:06 | link do post | comentar

pesquisar neste blog

 

Março 2013

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
12
14
15
22
24
30

posts recentes

arquivos