Quarta-feira, 20.03.13

Cicatrizes Douradas

Adorava sentir os grãos de areia, que se recusavam a sair da sua toalha, contra o seu rosto. Relembravam-na de onde estava.
Bem esticada e com o rosto virado para a direita, olhava para a imensa falésia, lá ao longe, que marcava o fim do areal. Tinha agarrado no cabelo, torcendo-o e pondo-o todo à sua esquerda, ficando deitado sobre a toalha de modo a não impedir o sol de se deitar sobre ela. Sentiu duas mãos grandes, as mesmas que momentos antes tinha visto enquanto dormia, a pousarem nas suas costas como que a medir a sua temperatura corporal. ‘Está quente, perigosamente quente’, pensou ele. Sabia o que fazer. Na mala dela, que estava debaixo de uma espécie de lençol branco que usava para se proteger do vento de fim de tarde, encontrou o protector solar e o óleo bronzeador. Sabia que não lhe tinha que perguntar nada. Aliás, sabia que ela gostava quando ele não perguntava. Pegou nas embalagens e encheu as mãos com uma mistura dos dois produtos. Pousou o excesso no fundo das costas dela e começou por massajar-lhe os ombros. Espalhou a loção tão exaustivamente que a pele teve tempo de absorver tudo. Com as palmas das mãos apoiadas nas costas dela desenhava círculos com os polegares, diversificando cuidadosamente a força, ritmo e intensidade de cada movimento.
Ela não se mexia. Fechara os olhos apenas.
Continuou a descer pelas costas de quem admirava, aproveitando agora o excesso de creme e óleo que tinha pousado nela. Adorava o fundo das costas dela. Como se atrevia a fazer aquela curva, naquele ângulo que se ajustava tão bem às suas mãos. Aqui já não insistiu na massagem, espalhou o creme e óleo bronzeador apenas. Desapertou-lhe os laços da pequena peça de tecido que envergava, devagar, muito devagarinho. Gostava de fazer as coisas ao seu ritmo, de as saborear, de a saborear e adorava como ela o deixava demorar o tempo que quisesse. Puxara com muito cuidado o atilho, até o nó se soltar. Fez o mesmo do outro lado. Não precisava de levantar o tecido que agora pousava nela, não que não tivesse vontade, mas agora não era o momento. Tinha descido para as coxas dela, estava sentado a admirar como o sol lhe beijava o rosto, os lábios, a admirá-la. Massajou tudo até que os vestígios de qualquer tipo de substância estar sobre ela serem nulos, espalhando o que restava docemente pela barriga das pernas dela. Refez os laços que tinha amorosamente desfeito, deu-lhe um beijo na maçã do rosto agora cheia de cor e retirou-lhe do rosto a mecha de cabelo que o vento se tinha esquecido de levar consigo.
Caminhou até ao mar, calmamente e a olhar para o horizonte, de ombros para trás e coração inundado dela. Deixou as ondas vir ter consigo, tocou na areia, lavou as mãos e levou a água ao rosto formando uma concha com as mãos; deixou a água escorrer pelo peito. Viu-a entrar na água. Um passo, outro, outro e um mergulho. Conseguia ver a silhueta dela a afastar-se, através da água cristalina.
Veio à superfície, respirar. Já não conseguia pousar os pés na areia, estava à deriva, movendo as pernas e braços para se manter à tona. Olhava para a imensidão de água que tinha à sua frente, como que de um lugar à espera de ser conquistado se tratasse. A corrente de fria que passava pelos seus pés fazia com que os aproximasse da barriga. Sentiu as mãos dele a abraçarem-lhe a barriga e fechou os olhos. Estava tão feliz por o ter ali, com ela.
Ele tinha uma maneira de a abraçar que era muito sua, muito característica, única, indiscritível. Sentiu-o encostado a ela. Trocaram beijos molhados, daqueles que escorregam e que pedem para voltar à zona em que ambos teriam pé. Nadaram até sentirem a areia a aconchegar os pés. Ele estava quase em pé, apenas com os ombros e rosto de fora, com os joelhos dobrados a formar um espaço onde ela poderia flutuar sem ser levada para longe pela maré. Estavam ali, os três: Ela, ele e o mar.
Sempre que dizia que gostava de cicatrizes recebia reacções negativas, não compreendiam o que queria dizer nem lhe davam oportunidade de se explicar. Gostava muito. Cada cicatriz contava uma história e histórias fascinavam-na. Passou os dedos pelo volume de pele regenerada que ele tinha na curva que separa o ombro das costas. Gostava de sentir a depressão que a cicatriz provocava na pele de quem a olhava com olhos de fome. Passou as duas mãos por baixo dos braços dele e chegou às duas cicatrizes que tinha naquelas costas largas que eram suas, só suas, por hoje. A cada toque sentia-o a aproximar-se, a respirá-la, a encostar os lábios molhados as seu rosto.
Inclinou a cabeça para trás, deu-lhe as mãos e enrolou as pernas à volta dele. Estava a flutuar, com o cabelo a enquadrá-la e os seios e rosto a não querer imergir no mar que a recebia com tanta ternura. Com o sol a iluminá-la, não conseguia aguentar mais. Ela, percebendo o desejo acumulado que o consumia por dentro, aproximou-se do ouvido dele e disse a primeira palavra do dia: ‘Agora.’

publicado por verbistantum às 20:55 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Lareira

Estava na hora. Mas nada aconteceu. As palavras que não foram ditas, os beijos que não foram dados, as despedidas que não foram demoradas. Só queria dormir, sabia que nada mais iria acontecer hoje, que mais nenhumas palavras iriam ser trocadas. O mundo dorme, os que não dormem escrevem para si mesmos. Como ela gostava de escrever para ele ... Enfim, outros tempos. Agora não se dava a ninguém, não guardava ninguém na gaveta mais imediata do seu extenso armário de memórias e vivências. Acabava o dia despedindo-se de si mesma, mas nunca obtinha resposta. Não ouviu mais música, não conseguia. Pensava num escritório, forrado a madeira, com sofás e mantas e talvez uma televisão. Pensava em si deitada ao lado dele, o homem que tinha deixado o mundo dela na sua forma corpórea, só e apenas assim. A dormitar ao som da respiração que a confortava. Calma, quente, aconchegada a ouvir a lareira crepitar. Com uma perna a abraçar as pernas dele e com o corpo ajustado a ele e ao sofá. Encaixada como um lego, sentiu um beijo na testa e ouviu \'Boa noite meu desejo\'. Enroscou a cabeça e prendeu por uns segundos o seu corpo ao dele com mais intensidade, como que a desejar bons sonhos, como que de um abraço já meio adormecido se tratasse. E deixou-se adormecer, ao ritmo dele. Dançaram os dois até amanhecer.
O raio de sol que entrou pela frecha das portadas do quarto acordou-a. Bocejou, suspirou, e levantou-se. Sozinha, em casa, contou quantas horas faltavam para voltar a ver o seu desejo.

publicado por verbistantum às 01:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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