Mapas

Encostada ao peito do homem com o qual tinha ficado tão familiarizada ao longo dos últimos meses, inspirou, deixando o cheiro dele encher-lhe os pulmões. Com os dedos da mão direita a delinearem mapas para cima e para baixo no peito dele, beijava-o levemente no pescoço, enquanto o sentia a cheirar o seu perfume, a encostar a cara à sua testa.

Não podia estar mais confortável. Nos braços de quem a percebia, de quem admirava, de quem a queria guardar só para si. Tinha acabado de experienciar aquela sensação que temos sempre que o desejo de algo aparece em nós. Aquela que nos aquece de repente, que aumenta a velocidade das sinapses e que planta a semente da vontade no pensamento. Aquela que torna o tocar em agarrar, lábios suaves em línguas apaixonadas e mãos vagabundas em meios de prazer. E agora estava em paz, satisfeita e muito ternurenta. Deliciada com o ser que tanto a tinha ajudado. Feliz por saber que tinha contribuído para a felicidade desta alma linda, tão apetitosa, tão inteligente. Feliz por ali estar, por poder beijar a alma de alguém que já tinha beijado a sua com palavras escritas nas entrelinhas de sorrisos que nunca viu.
A consciência tomou-a de assalto, o indeterminado sonho que tinha andado a tentar perceber na sua cabeça clareou como se de uma nuvem de chuva se tratasse, dando lugar ao sol. Abriu os olhos, devagar devagarinho, virou-se ficando deitada de costas e levantou o edredon do seu corpo com um gesto que se tinha tornado habitual. Era um ritual agora, convidar o ar frio a fazer o que a força de vontade diminuída dos primeiros momentos da manhã não podia. Puxava-a para longe do sono. Levantou-se.

publicado por verbistantum às 03:02 | link do post | comentar | ver comentários (1)