Sábado, 16.03.13

Descanso

“Está bem ?”

Ela estava a tremer, nua, e dorida. Partes dela estavam a latejar, e as restantes apenas doíam. Ela estava exausta. Estava esgotada, por outras palavras. Farta de ser provocada, tocada, levada ao clímax outra e outra vez. Estava finalmente cheia. Acabada, por agora.

Tinha-se tornado rotina, aquela pergunta. Murmurada ao seu ouvido enquanto ele a segurava nos seus braços, para ter a certeza que não havia nada que lhe escapava, para lhe dar a oportunidade de pedir um copo de água, ou sinalizar que sim movendo a cabeça, um banho seria perfeito agora. Mas hoje as palavras não vieram, só um sorriso cambaleou através da sua cara.

O silêncio fez com que ele se endireitasse numa fracção de segundo, a ajustasse ao seu corpo, ao seu colo, ao seu peito, e lhe afagasse a cara com ambas as mãos.

“Como está ?” Um pouco mais severo desta vez, um pouco menos calmo. Preocupação transparecia na sua voz, e foi isso que a fez abrir os olhos, olhar nos dele. Ela só sorriu uma vez mais.

“Estou … bem.” Primeira palavra inspirou, segunda expirou. Pausa entre as duas. Ela virou a cara, pressionando-a no seu peito, e fechou os olhos outra vez. Ele relaxou e ela conseguia sentir o sorriso dele na maneira como os seus braços se enrolaram nela, abraçando-a até ela desaparecer.

publicado por verbistantum às 22:37 | link do post | comentar

Chapinhar

Foi a coisa mais estranha. Não era tanto que ele estava a ter qualquer coisa a ver com um pensamento concreto naquele preciso momento, quando uma mulher linda estava entre as suas pernas, o corpo dela sobre o dele, os seus lábios a venerar cada centímetro da sua pele, os seus dedos a sentirem o batimento do seu coração, mas que nada disto o fazia sentir obsceno de qualquer forma.

Mesmo com as obscenidades que escorriam da sua boca como um rio, projectadas na mente dela e fazendo as mãos dela explorarem o seu corpo, não se sentia de todo depravado. Não se sentia mal, foi o que se apercebeu estar a pensar. Isto não o fazia sentir mal.

Os seios dela tornaram-se um alvo, e ele fez um esforço para os alcançar, mudando de posição, ajustando-se a ela, encontrando aquele vulnerável, terno lugar onde com um só toque a fazia gemer, onde as vibrações da sua voz a faziam sorrir ao de leve. Onde os sons que ela fazia o entusiasmavam, onde os silêncios dela o entusiasmavam ainda mais. Isto era o que lhe sabia a certo, tudo isto era natural, divertido, completo. O sorriso aumentou com este pensamento.

Devia estar a sentir um arrepio a descer pelas costas abaixo quando se apercebeu o tão longe que estava das expectativas que tinham dele, da imaginação da sociedade, naquele preciso momento.

Por um momento, preocupou-se pensando que isto significaria o princípio do fim. Por um momento, preocupou-se que iria tudo tornar-se aborrecido a partir daquele momento, nunca podendo ser melhor. E depois aquela língua tão familiar apunhalou-o de prazer com uma força ternurenta, provocando-o, contorcendo-se e tocando-lhe maravilhada com o seu fervor, esperando que o toque o faça pedir por mais, o faça quere-la mais.

publicado por verbistantum às 21:27 | link do post | comentar

Polaroid

O cheiro agarrava-se a ele fazendo-o ficar paranóico. O metro estava cheio para uma segunda feira  à tarde, e os olhares rápidos que deslizavam até ele vindos dos outros passageiros faziam-no remexer desconfortavelmente no seu lugar. Tinha o corpo cheio dela, uma frase que nunca imaginou pensar.

Ele não se mexeu. Apenas sorriu. Ela deitou-se de lado olhando para ele, um leve pressionar de lábios apoderou-se dela, como que em sinal de protesto, amuo, e deixou a sua mão descansar no espaço entre as coxas. A maneira como ele estava fazia-o parecer um actor dos anos cinquenta, imponente, dominante, em pé a admirá-la. Pena que a luz estivesse errada. Era o início da tarde e os filmes dessa época parece que se esquecem que essa hora alguma vez existiu. O preto e branco gostava de meias-noites e de amanheceres.
Ele estava à espera, mas não lhe dizia do quê. No princípio ela estava frustrada, o que quer que seja que ele estava à espera seria completamente irrelevante face ao estado em que ela se encontrava. Um estado, de vontade, que tinha sido inteiramente causado por ele, pelas suas palavras e pela verbalização dos seus desejos.
O telefone tocou, barulho de fundo obstruído pelo som da dança de sedução que ela fazia com o seu olhar, com os seus cabelos, com o seu corpo, deitada à sua espera. Porque é que haveria de esperar? Não percebia, não compreendia o porquê de ficar tantos segundos, tantos minutos só a olhar para os seus olhos. Porque é que ele esperava?

Ele esperava porque sabia que a espera a enlouquecia, a fazia suplicar, gemer, posicionar-se da maneira que achava ser a mais atraente para ele, esforçar-se por não perguntar nada. Era por isso que ela estava ali deitada, com um semi-sorriso nos lábios que lentamente esmoreceu quando os segundos se transformam em minutos. Mas porque está ele com aquele sorriso ridículo quando podia estar a ter tudo o que deseja? A espera tinha um efeito nele diferente do dela. Ela estava cada vez mais consumida pela ideia do que ele lhe iria fazer quando finalmente a agarrasse, a tornasse dele. Mas ele não, ele estava a testar-se a si próprio. A contemplar o que era seu, a admirar o que queria e o que o queria a ele. Aqueles minutos em pé, sobre ela, foram a confirmação de que ele era mais do que pensava. Era alguém que era desejado por outra alma, alguém que sabia que a alma que ali estava, naquele momento, lhe pertencia. Era dele, dele e só dele. Sabia que ela não só deixava que ele lhe fizesse o que quisesse mas que tinha prazer em fazer o que ele lhe confessava querer fazer. Gostava de saber o que o fazia gemer. E estava mortinha para o ter nos braços.

A espera, para ele, era a memória que queria guardar. A imagem dela, nua para si, a olhar-lhe nos olhos e a pedir-lhe com mil silêncios que a beijasse era o que queria guardar. Uma imagem do que o desejo verdadeiramente era. Era isto. E ele sabia o quão especial ela era para si. O quanto ela o admirava, o quanto o queria por inteiro, o quanto queria ser sua. Ali ficou uns minutos. Olhou para ela, viu-a, sentiu-a e percebeu-a. Até não aguentar mais.

publicado por verbistantum às 19:36 | link do post | comentar

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