Segunda-feira, 25.02.13

Jazz

Importa, sabe? Cria-se uma sensação totalmente diferente quando mudamos os detalhes. Todas as particularidades de todas as cenas importam, e é aí que encontra o tom de tudo, o comportamento e a percepção. Troque seda por algodão, e o enquadramento será visto numa luz diferente.

Penso nestas coisas, nas combinações que criarão o cataclismo para o seu prazer e que irão dar o mote para as horas seguintes. Quanto mais o conheço mais quero entrar dentro da sua mente, fazer parte da criação de um estado espírito muito específico em si, e vê-lo sucumbir a cada bocadinho que passa, criando sensações em que me revejo. Provoca em mim sensações nunca antes sentidas. Sabe a victória, a concretização, a validação. A maneira como as minhas mãos corriam pelo seu corpo faziam-no querer-me cada vez mais. Como se isso fosse possível. Eram festinhas perigosas. Dedos a pressionar a sua pele, deixando para trás pequenas marcas, pequenas depressões que sabia que iriam desaparecer num minuto, mas que por agora eram muito reais, muito presentes. Reclamando como meu tudo o que encontrava, agarrando, mordendo, deixando a minha marca, marcando território, fazia-o sentir seguro. Dedos a agarrá-lo como se fosse a única jangada que me levaria para fora de uma ilha deserta.

A improvisação, como se fizesse da minha mão um saxofone e os meus dedos dançassem nessas válvulas, produzindo música e sensações com uma harmoniosa melodia. O jazz que radia de duas almas que, a cada nota, dançavam cada vez mais perto, ao som um do outro.

publicado por verbistantum às 23:17 | link do post | comentar

Paciência

 

Ele não se considerava um homem impaciente. Tinha passado grande parte da sua vida a acreditar precisamente no oposto, desde a sua vida profissional ao tempo que tinha conseguido sobreviver romanticamente sem ser capaz de se deixar sucumbir às coisas que estava tão desesperado por fazer.

Os seus dedos entrelaçados no cabelo dela, encontram um nó e puxando, puxando, puxando, até o desembaraçar e este cair em vários fios, fica com a madeixa de cabelo a balançar-lhe pelos dedos. Os olhos dela abriram muito devagarinho e procuraram-no, fixando-se nos dele, ficando sua prisioneira.
Como a luz lhe afagava as costas e lhe iluminava o cabelo, como o lençol se drapeava desde o fundo das costas até aos seus pés, como tinha a cara protegida pelo ombro direito que a confortava. Será que ela sabe? Será que ela conseguia perceber o quando ele a queria naquele segundo? Estaria escrito na sua cara?

Ele tentou imaginar como ela o estaria a ver. Protector, talvez. Possessivo, de certeza. Perguntou-se como ela se sentiria, se a antecipação dominava os seus pensamentos, ou se seriam mais nervos, entusiasmo cauteloso a flutuar na sua barriga enquanto a sua mente pensava em cenário após cenário. Ele pensou que gostaria de saber, mas ele gostaria de tê-la mais. Bem, ela era dele. Toda e completamente dele. E ele sabia.

Agora, agora tinha-a, mas não na maneira que desejava. Não no sentido imediato, íntimo, físico. Tinha a sua alma, e queria o corpo dela também. Tentando desesperadamente manter o aspecto de calma e sossego só pensava no quanto a queria. E aí, todo o tipo de autocontrolo que tinha conseguido exercer até a este momento saiu do seu corpo. As suas mãos agarraram as curvas tão lindas que tanto o enternecem. A paciência tem limites, pensou.

publicado por verbistantum às 23:00 | link do post | comentar

Prateado

 

Dizem que o silêncio é ouro, mas sempre pensei que fosse como prata derretida.

O ouro é macio e saturado, ostenta uma expressão de algo que é, pela sua própria natureza, calmo, contido e pessoal. A prata tem uma irreverência em si, e os silêncios estão quase sempre à espera do nascimento de uma ideia, de uma forma ou de outra.

Sem uma voz para divulgar os pensamentos, ficamos com eles, deixando-os a cozinhar em lume brando até fermentarem e extrapolarem, tornarem-se maiores e mais precisos, mais íntimos.

 

Envolvida em silêncio prateado, sem nada mais que o suspiro que deixa escapar uma ou outra palavra, e o suave brilho da minha própria imaginação, adormeço.

publicado por verbistantum às 13:20 | link do post | comentar

O Bom do "Sonhar Acordado"

Não compreendo a procura do caminho da felicidade. De caminhos não percebo nada. Já de procura percebo alguma coisa. Procuro descobrir, aprender, conhecer. Procuro saber quem sou, mas mais importante que isso, procuro tornar-me em quem desejo ser. Aí começa o problema; quero tornar-me em alguém que não se pode definir. Como definir alguém que é um objectivo, que está em constante mutação e que não se contenta como ser estagnado?

Quem eu quero ser não é quem eu sou. Quem eu quero ser não é isto, mas ainda não sei o que é. Talvez nunca saiba, o que não me assusta. Sei que a evolução do ‘eu’ é constante  e ter noção disso altera o meu ponto de vista perante a vida.

Acho bonito as pessoas que dizem que vivem o agora. Acho curioso as pessoas que dizem ter planos de 10 anos para a sua vida. Acho importante termos estas ideias, mas acho mais importante ainda termos a noção que nenhuma destas hipóteses é realista.

A vida é descrita como ‘o espaço de tempo compreendido entre o nascimento (ou concepção) e a morte’. É um espaço de tempo. É uma sucessão de momentos. É uma sucessão de ‘agoras ‘ que terão passado num instante. É claro que o que está a acontecer neste momento faz parte do nosso viver. Não, corrijo, do nosso existir. Ah, a diferença entre os dois é importantíssima aqui. A diferença entre os dois é o que me faz continuar a viver esta vida que não é a mesma para mim e para os outros.

Os planos que temos para a nossa vida são outro tipo de fantasias. O que queremos hoje e projectamos para o futuro, de modo egoísta e controlado, como se a nossa decisão fosse final, intocável face às marcas do tempo e do impacto que outros indivíduos e experiências têm na nossa vida.

Hoje, sentada no canto do sofá de que tanto gosto, a ouvir a música que tanto admiro, a sentir o doce raio de sol de inverno a delinear-me as pernas, consigo afirmar que não sou quem pensava que iria ser. E que feliz que isso me faz.
Marcada para sempre por momentos que nunca existiram, por hipóteses agarradas por impulso, por momentos que revisito cada vez que cheiro a mesma essência que foi tão presente na minha vida e de forma tão intensa. A mente é traiçoeira, não nos permite apagar memórias selectivas como gostaríamos. Somos constantemente bombardeados com imagens, sons, cheiros, sensações que nos levam de volta a um momento, a uma pessoa.

Gosto muito de pensar que as pessoas estão em constante evolução, que a cada momento que passa se alteram um pouco, se deixam influenciar, influenciam outros. O momento em que conhecemos alguém é chave. A fase em que se encontram na vida. O quando.

O processo de evolução de alguém não tem de ser bonito. Nem tenho a certeza se deve. As partes más são também importantes. Não vou dizer que é aí que se vêm os verdadeiros amigos, nem muito menos que é aí que mais precisamos de apoio. Vou antes dizer que é nestas alturas que nos descobrimos. E não temos de gostar do que os outros gostam em nós. Nem temos de gostar de quem somos. Acho que este é o momento em que sentimos que nós, e só nós, podemos mudar a nossa perspectiva face à vida. Ou, como eu, escolher outra.

O bom de “sonhar acordado” é isso mesmo: sonhar. Não magoamos ninguém, à excepção de nós próprios, e encontramos uma felicidade momentânea que à tanto ansiávamos sentir.

A descoberta de um outro mundo foi o que me salvou deste. 

E sabem que não somos todos assim tão diferentes: não gostamos do chefe, não suportamos as tarefas do dia-a-dia, precisamos de uma pausa dos miúdos, queremos fugir.
A forma como nos entregamos a este sonhar acordado é o que difere de pessoa para pessoa. Como nos entregamos totalmente à fantasia é o que distingue os corajosos dos distraídos. Perdermo-nos em pensamentos é uma experiência repleta de prazer, de um prazer inocente e extraordinariamente belo, repleto de sensações.

E quando permitimos que alguém coabite este nosso mundo atingimos o ponto em que sabemos que esta fantasia se pode traduzir em realidade, que as nossas vidas encontraram a possibilidade de se deixarem afectar por uma outra alma. Podendo isto ser bom, ou não. A partilha de um mundo que era meu e passa agora a ser nosso necessita de ser explicado. A partilha de fantasias precisa sempre de ser só e apenas isso. A concretização do desejo, da vontade, do querer. As sensações nunca poderão dar lugar a mais nada. Será especial por isso mesmo. Por ser único e irreproduzível.

O realizar destes sonhos corre sempre o risco da desilusão. A quantidade de vezes que imaginamos algo, as variantes que criamos desta, as várias possibilidades, as projecções que fazemos nunca se materializarão por completo. E não podem. A linha entre os dois mundos tem que estar bem definida. A distinção do que eu quero do que eu tenho, do que existe, é o que faz com que isto funcione.

A vida de uma alma passa por muito ao longo dos anos. Aprende, confia ou desconfia mais nos outros, tem cada vez mais a certeza do que quer ou talvez não; Quando se depara com algo que a surpreende verdadeiramente assusta-se. Porque padronizou as pessoas, porque deixou de acreditar que coisas melhores eram capazes de vir ter consigo.

E, de vez em quando, lá aparece alguma coisa ou alguém diferente.

Ser diferente é bom, é tão bom.

Encontrar alguém com quem possamos falar abertamente sobre os nossos mais íntimos desejos e que nos permita chegar perto de si, que se abra perante nós, que nos permita beijar lhe a alma é difícil. É raro, daí ser tão bonito.
Estes são os momentos pelo qual vale a pena continuar. As pessoas que anseiam por nos descobrir, que nos tocam e marcam, o pedaço de nós que ficará sempre com elas e o pedaço delas que levamos connosco. Um sorriso, uma palavra, uma música, um sítio.

Se pensarmos bem, um mar vasto que ondula à nossa frente pode-nos seduzir e afectar tanto como uma pessoa. Pode nos levar a um momento de total catarse, limpar-nos a alma e servir como meio de libertação.

Sonhem acordados, estimulem o que têm dentro de vós. E não precisam de partilhar os vossos sonhos nunca, com ninguém. Mas sonhem, deixem a vossa mente perder o controlo, fechem os olhos e sintam-se a perder a forma corpórea. Sintam a alma que são e aproveitem para viver o que desejam.

Descubram o que vos dá prazer e não o deixem fugir, levem-no convosco, sempre. Estará sempre ali, quando precisarem.

O poder da criação está dentro de todos nós. Não o desperdicem.

Tudo é possível.

publicado por verbistantum às 11:56 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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