Anti-Lamechice

Bem, isto dos sentimentos e lamechices é muito bonito e tal mas já chega. Tomei a liberdade de ler as patetices e devaneios que por aqui andam faz hoje dois meses e confesso que fiquei um tanto ou quanto surpreendida. Parece que estou pronta para saltar da ponte, valha-me deus. Na minha pouco importante opinião até sou uma pessoa porreirinha caramba.
Farto-me de rir com as mais sarcásticas piadas, com os mais imaginativos piropos e com parvoíces sem conteúdo que ouço vindas de alguém pela qual não tenho especial simpatia. E tenho uma vida ocupada, estou ocupada até quando não estou porque tive que marcar ocupações nos tempos desocupados devido ao facto da agenda insistir em estar ocupada.
Tenho uma grande amiga que é bestial, um amor de pessoa. (Esta existe mesmo, não é um livro nem um vinil) É, com toda a certeza muito melhor pessoa que eu. Hoje, na minha habitual tarde de letras, tocou o telefone - está chocado, eu sei, contenha o entusiasmo. O raio do animal vibrou e até rosnou para que lhe desse atenção. E lá estava o nome da tão jovem de corpo e tão dinossauro de alma amiga aqui da yours truly. Raio da rapariga pôs-me um sorriso na cara mesmo antes de atender. Ah, pois, esta parte é novidade: existem outros seres (humanos ou não humanos) que têm bom gosto e escolhem-me a mim como companhia. Doidos, eu sei. Também são poucos, não se preocupe. Pois esta ilustre caríssima minha amiga esteve ao meu lado quando não havia ninguém. Lá vem a porra da lamechice outra vez. Vamos continuar. Falámos de tudo menos do banal. E sim, eu sei que não estás a ler isto mas digo na mesma porque sim, és tu que tens os dois CDs do Sérgio Godinho que me faltam não me venhas cá com tretas. Por volta da mais de meia hora de conversa e de muitos rabiscos feitos já o empregado se ria do meu riso. Criou-se ali uma cumplicidade simpática e que quase me fez pensar não estar a dizer nenhuma barbaridade. Mas estava: com toda a certeza que os nomes e referências carinhosas que partilhámos se assemelharam a alguma língua Persa para os cavalheiros e senhoras que ao pé de mim se passeavam. Gosto dela, é quase tão tonta como eu. Tem um bocadinho considerável de mais juízo, um cabelo que aguenta melhor a laca e uma sorte ao jogo do caraças. Pronto, o elogio está feito. Ela detestaria isto.
E assim se vê, ou se lê para quem não acha piada a brincar com óbvio, que também sou pessoa. Mas com 'p' pequenino que ainda me falta muito para me juntar aos Grandes. Também vou à casa de banho, também me esqueço se a palavra é com 's' ou com 'z' e também tenho os ocasionais espalhar-a-mala-no-meio-da-rua-num-dia-de-vento.
Estranhamente o mundo acha que dou bons conselhos. E inevitavelmente aparece alguma amélia que me pergunta se acho determinado indivíduo 'giro'. Pronto, está o caldo entornado, até porque não percebo nada do que é para os outros giro. Ou sou eu que sou muito estranha (sim, é isso) ou o de que as humanas (e alguns humanos fabulosos) gostam é feio. E quando digo que não acho o jovem actor promessa giro ui, os deuses perdem a cabeça. Pronto, já chega que daqui a nada estou a falar de gordos e de falta de folículos capilares e depois não me calo.
Faço o 'caça-palavras' do DN todos os dias e às vezes faço os outros jogos também enquanto tomo o pequeno-almoço e ouço a minha musiquinha. Leio os jornais ao contrário ao fim-de-semana. Sou fiel a programas, estações de rádio, canais de televisão, autores e crónicas.
Sei andar de bicicleta e tenho duas cicatrizes do acidente de mota. Se tenho as unhas bem pintadas é porque não fui eu que as pintei. Uma vez num restaurante ofereceram-me uma coca-cola e eu agradeci. Já fui atropelada e já fui à pesca. Invoco nomes de deuses da Grécia Antiga várias vezes por dia. Não durmo e quando durmo sonho que estou acordada. Se quiser levar a cabo uma bem sucedida morte por envenenamento da minha pessoa marisco é a escolha ideal, fica a nota. Devido a um problema espectacular que tenho (que não vou explicar agora porque começou a ficar vento e eu estou muito descapotável e ainda me constipo) sempre que me rio mais do que uns segundos começo a chorar de uma maneira que pronto, assusta um bocadinho se não disfarçar. Canto muito, canto mal. Vestidos, ou saias vá, sempre. Possuo um único par de calças que odeio vestir. 

Já chega não já ? Também acho que sim. Até fui bem sucedida na missão anti-lamechice.


[Não ponho música aqui porque se pusesse o blog seria brilhante e de muito bom gosto. Como não quero que o seja, de modo algum, rescrevo antes apenas umas coisas que escrevi num moleskine encarnado, porque o preto estava esgotado.]

publicado por verbistantum às 01:48 | link do post | comentar