Controlo

Não se lembrava onde o tinha ouvido, era daquelas coisas que podia ter sido assimilada em qualquer lado: \'Quando uma rapariga está a falar com um rapaz e mexe no cabelo é porque gosta do dito.\'
Era esse o conceito, ouvido algures, que tinha ficado na sua mente e aparecia sempre que estava com alguma mulher, como que achasse que reparar neste detalhe lhe diria como era visto aos olhos dela.
Há muito tempo que se apercebeu, graças a ela, que o que atrai não é a observação do brincar com o cabelo, é sim como algum cabelo cai pelo seu rosto quando os seus dedos mergulham naquele mar negro e encontram o nó que se desfaz fazendo um pouco mais de força. Como o cabelo não se deixa todo ser agarrado por ele, como insiste em fugir dos seus dedos e cai pelos ombros nus, pelas costas que o chamam, pelos seios que o esperam. E é claro que o cabelo quer deixar de ser o que mais o atrai, quer perder o protagonismo que na verdade nunca teve. Era uma maneira de sentir que ela era sua: afagar-lhe o cabelo ou controlá-la através dele.
A exploração das potencialidades do cabelo dela começou quando ela lhe pediu para o fazer. Não tinha sido algo que lhe tivesse dado propriamente prazer, controlá-la assim. Não desgostou até porque não era só isso que lhe prendia a atenção, mas gostou de ver as reacções que provocou nela. Queria-a tanto que estava disposto a fazer tudo o que ela lhe pedisse, a dar-lhe tudo o que pudesse (o que não era muito, não era nada). E ela não queria muito, e não pedia nada. A entrega e devoção a ele eram mais que suficientes para a satisfazer.
Até que um dia pediu. \'Gostava que me mexesse no cabelo, fizesse o que quisesse com ele.\' - o resto da frase foi preenchida mentalmente com o que sabia que ela gostava - A provocação, a total entrega do controlo sobre o seu corpo, o acesso à sua alma. Foi um pedido simples, murmurado enquanto a tinha nos braços. Por ela faria muito mais: \'Claro que posso, quero-a muito, quero-a para mim.\'
A vontade que tinha dele não se traduzia em exigências, era muito mais profunda que isso. Podia ser lida nas entrelinhas de carícias e olhares, mas principalmente no modo como lhe pedia sempre autorização para o sentir, para o saborear e para o ter dentro de si. Como lhe entregava o completo controlo do seu corpo e do que podia fazer com ele.
Quando ele percebeu que o \'não\' também podia ser resposta ela sorriu e beijou-o com tanta força, com tanta ternura que se abraçou a ele e não o largou durante muito tempo. Aquele \'não\' era a perda do medo de errar ou de ser mal compreendido. É assustador até não ser, até tentar e perceber, até meter medo outra vez. E ele era agora a alma a que ela pertencia. Era sua, sua e só sua.
A devoção, o sentimento de profunda admiração e carinho que ela tinha por ele, que ele sentia que ela tinha por ele, não se media em palavras mas sim em gestos, em gemidos, em expressões de desejo e em beijos.
publicado por verbistantum às 01:10 | link do post | comentar