Letras

Quando usava aquele vestido já sabia o que ia acontecer. Era um vestido como qualquer outro, modesto, não muito decotado, suave e por cima do joelho. Não era o vestido que pedia que ele passasse os dedos pelas suas pernas, beijasse as suas coxas nem que se aventurasse para além da seda molhada - era o ar que ela tinha quando o usava. O tecido encarnado escuro, leve e simples, drapeava sobre os seios contornos de desejo que apeteciam. Apertado o suficiente para contornar o que queria que fosse tocado, largo o suficiente para deixar a imaginação tomar conta dele. Pura sedução, vontade expressa sem vergonha nem hesitação alguma. Vestia-o para ele, para ele a despir com os olhos. 
Adorava agarrar a mão dele, agarrar mesmo, mostrar-se presente e encorajá-lo a continuar ou até mesmo fazê-lo parar só para confirmar o quanto ele a queria. Não resistia a fazer isso. A sua mão seguia a dele sempre que ele a queria assim. Era um controlo que gostava de mostrar que era seu, porque, até ali, era. E depois a seda é afastada, as meias rasgadas e o vestido levantado um pouco mais. A mão ganha uma nova força e a voz também.  
Quando não o tinha para si, e pensava no seu desejo, não sabia se era ele ou ela que lhe tocava. Se calhar era ele, através dos dedos dela. 
Mordiscou os lábios por um momento, olhando para o reflexo na janela, para o seu peito e de volta para o reflexo. Teve dificuldades em ler a palavra de pernas para o ar, as letras pareciam não ter significado, talvez fosse o seu cérebro que não estivesse concentrado o suficiente para as decifrar. Mas quando pensou no que ele lhe tinha dito, e na maneira como o tinha dito, as letras assumiram um significado (in)esperado. Sentiu o peso de cada uma daquelas letras no seu peito, uma palavra que assumia o papel de um beijo na sua testa, uma carinhosa palma da mão que afagava o seu pescoço, um abraço apertado que não tinha fim. 
Era assim praticamente desde que tinham trocado as primeiras palavras mais íntimas, sugestivas, arriscadas. Deixavam pequenas impressões físicas um no outro, depressões na pele que demoravam pouco a desaparecer, nódoas negras que só os dois sabiam como tinham aparecido, faces coradas que momentos depois se diluíam. Desta vez deixou-lhe algo artificial no corpo, uma palavra que desapareciria no duche, escrita com a caneta dele e para ela. Melhor, nela - que era sua. Depois da água quente ter corrido sobre o seu corpo as letras foram apagadas. As letras, as que ele tinha escrito, desapareceram do seu corpo. Mas o que queriam dizer ficou na sua mente até hoje.

publicado por verbistantum às 01:51 | link do post | comentar