Porcelana

Era porcelana. Era apenas uma peça de louça que tinha apenas um único propósito: conter grandes quantidades de água e quem nela se mergulhava.
O martelo que sem piedade partia em pequenos pedaços inúteis aquela peça de design barato fazia um som barbárico quando o metal a quebrava, que para ela continha um significado imenso, mas para o homem que tinha contratado (alto, vestido de camisola de lã preta cheia de borbotos e calças caqui manchadas de tinta de outras obras) era o som de um normal dia de trabalho.
Aquela banheira era uma das pequenas grandes coisas da sua vida. Daquelas que não importavam no sentido físico mas sim no que simbolizavam - algo que importava, e muito. As noites que passaram juntos ali (sim, juntos) não podiam ser partidas em pedacinhos pequeninos. Essas noites faziam parte dela agora. Era, no entanto, a única coisa material que restava de quem tinha tido por ela um carinho tão grande, tão único.
Estava na hora. Viu momentos da sua vida a serem varridos para uma pá encarnada e ainda com etiqueta, já amarela e ilegível. Assim, tão simples. Era só uma banheira. E agora já não era.
Nunca mais voltou àquele apartamento, àquela cidade, àquela vida. Mas voltou a ele. Voltava a ele de vez em quando, quando precisava. Não para ele, a ele. Abria a gaveta do armário mental das tardes e noites passadas naquela banheira e fechava-a mais feliz. Talvez ele fizesse o mesmo. No céu há gavetas ?

publicado por verbistantum às 02:37 | link do post | comentar