Luz

Os momentos em que todos dormiam, antes dela dormir, eram os mais produtivos do dia. Personagens surgeriam da escuridão, completamente formadas, dançavam para ela e ela gravava-as no papel, antes da memória as deixar voltar às trevas, antes que se desvanecessem na escuridão.

A luz avermelhada escorria pelo chão de madeira escura, enchia o quarto com uma delicadeza que só a primeira luz da manhã consegue ter, delineando sombras de lençóis, sapatos e roupa da noite anterior. 
A manhã tinha chegado antes dele e quando abriu os olhos já o quarto estava consumido pela luz. Na noite anterior mal tinha tido tempo de se despir, antes de mergulhar no algodão egípcio, muito menos de fechar as cortinas. Ela ainda dormia, a seu lado, com o ritmo da respiração a indicar que não iria acordar nas próximas horas. Não tinha coragem de a acordar, de a tirar daquele estado de calma e paz em que se encontrava, mal tinha coragem de continuar a viagem em que se encontrava a caminho da consciência. Levantou-se: fora do calor, dentro da luz do dia.
A luz tinha-o intrigado e, como sempre, punha a sua curiosidade à frente do seu conforto pessoal. Era por isso que estava ali, em vez de estar em casa. Era por isso que ela estava ali, e não outra pessoa que diziam ser a sua.
Estava agora em pé, à janela, a admirar aqueles cabelos negros e lábios escarlates que eram beijados pelos primeiros raios da manhã. Caminhou até ela, sorrindo. Deitou-se a seu lado, afagou-lhe o cabelo e encaixou-se a ela. Sentiu-o, ajustou-se a ele, entrelaçou os dedos nos dele e levou as mãos ao peito. E assim ficaram, com a perna dele por cima das dela, com a barba dele a roçar-lhe o ombro, com a respiração dele a fazer-se sentir no pescoço dela. Sem palavras, só ternura. 
A promiscuidade da noite anterior dava lugar ao mundo do reconhecimento de defeitos e qualidades, à admiração profunda, ao desejo de proximidade e ao saborear. Porque o mundo real era aquele e não o que a luz fazia acordar.
Não sei se se levantaram, se ele saiu e a deixou dormida sem nunca a ter voltado a ver, se ela saiu enquanto ele tomava banho ou se desapareceram nos braços um do outro. Sei que, naquele momento, eram um. 

publicado por verbistantum às 02:37 | link do post | comentar