Flor

Eram os olhares fugidios que o estavam a prender a ela. Os dedos dela passeavam por cima dos sítios certos; aqueles que ela queria que ele beijasse, sobre os quais queria que passeasse os dedos, onde queria ser agarrada e atirada contra a parede. Aqueles sítios que ela queria que ele declarasse seus.
Olhava agora para ele assumindo totalmente a sua vontade. As suas mãos curiosas vagueavam pela pele dele, apertando-o ligeiramente antes de soltar um leve riso feliz que saia dos seus lábios e ecoava na sua cabeça. Ele não podia evitar sorrir, ou deixar a sua própria mão deslizar pelas coxas dela e encontrar a pele macia e delicada que o sol nunca via. Apertou-a e ela fingiu-se chocada, mordendo os lábios e sorrindo de uma forma malandra que o incentivava.

O que ele queria dizer, e estava certo que ela o encararia como um elogio, era que gostava de poder preservar a beleza do momento. Não, isso era pensar demais no assunto. Só queria dizer que ela era naturalmente bonita. Só isso.
Mas não era só isso, pois não? Porque não estavam as flores nos campos, onde deviam estar? Estariam fora do seu habitat, colhidas por algum romântico, cortadas e trazidas para longe, impostas nos braços de uma qualquer paixão? Murchariam na mesa-de-cabeceira, até serem atiradas pela janela fora sem remorsos de um amor jovem e inocente?
Ou talvez ele estivesse a invocar a sua beleza intemporal, que ela devia ser preservada, guardada como estava naquele exacto momento, exactamente assim. Mas não podia, pois não? Ela murcharia, como todas as flores murcham, e ela nunca voltaria a ser esta mulher, neste preciso momento, outra vez. O sorriso dele viria com um pouco menos facilidade e o elogio viria em palavras e não iria mais além, um mergulhador demasiado cobarde para se atirar para as profundezas do mar. Ele diria algo e ela continuaria sem ouvir as palavras maravilhosas que em tempos sairiam não da sua boca mas da sua mente.
Sorria, murmurava um ‘obrigado’ meio suspirado e beijava-o no rosto. Ele tinha-lhe dito em tempos que olhos dela eram lindos, profundos como o mar à noite, e ela tinha ficado a pensar que isso era lamentavelmente triste, também. Mas este era um triste que é bonito. Que era o seu favorito tipo de tristeza.

publicado por verbistantum às 02:04 | link do post | comentar